O teatro de sombras de Karagöz

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Karagöz é o herói do teatro de sombras turco e árabe e dá nome ao espetáculo de sombras. O espirituoso Karagöz, com sua retórica rápida e engenhosa, trocadilhos ásperos e jogos de palavras rústicos, viajou para muito além de sua terra natal; sente-se em casa na Grécia e nos Bálcãs, e em lugares longínquos da Ásia. Todo um feixe de lendas circunda a sua origem. Uma das mais populares afirma que Karagöz – o nome significa “olho negro” – e seu companheiro Hadjeivat realmente existiram no século XIV, na época em que a grande mesquita de Bursa estava sendo erguida. Seus duelos verbais vivos e grotescos paralisaram as obras de construção da mesquita. Em vez de trabalhar, os pedreiros punham seus instrumentos de lado e ouviam os longos e divertidos discursos de Karagöz e Hadjeivat. O sultão soube de suas façanhas e ordenou que ambos fossem enforcados. Mais tarde, quando reprovava amargamente a si mesmo por isso, um dos cortesãos do sultão teve a idéia de trazer Karagöz e Hadjeivat novamente à vida na forma de figuras de couro brilhantemente coloridas e translúcidas e sombras numa tela de linho: Karagöz com seu nariz adunco, barba negra, olhos astutos de botão e a mão direita gesticulando violentamente; e Hadjeivat vestido de mercador, cauteloso e meditativo, de boa índole e sempre sendo enrolado. Uma relação de tipos pitorescos completavam o elenco do teatro de sombras: Celebi, o jovem dândi; a linda Messalina Zenne; Beberuhi, anão ingênuo; o persa com sua pipa d’água, o albanês, e outros personagens regionais; o viciado em ópio; o bêbado.

Georg Jacob, um colecionador e estudioso do teatro de sombras oriental, atribui um alegado epitáfio de Karagöz em Bursa ao mestre de bonecos Mustafá Tevfik, que se supõem ter trabalhado nesse período.

O teatro de sombras era a diversão predileta tanto do povo quanto da corte do sultão. Era apresentado em casamentos e circuncisões. Porém, o grande momento de Karagöz chega com o início do Ramadã, o mês sagrado do jejum, quando, ao entardecer, todos acorrem aos cafés. O viajante italiano Pietro della Valle, que chegou a Istambul em 1614, fez uma narrativa detalhada da peça de teatro de sombras turca. Diz Della Valle em Viaggi, publicada em 1650-1658,

 

“Na verdade, nestes albergues onde se bebe existem, mesmo durante a época de seu grande jejum, certos bufões e zanni que divertem os convidados com toda a sorte de pilhérias e tolices. Entre as coisas que fazem, conforme eu mesmo vi, estão as representações de fantasmas e espíritos por detrás de um tecido ou de papel pintado, à luz de tochas, os quais se movem, andam, eles fazem toda uma variedade de gestos exatamente da mesma forma que se faz em algumas apresentações no nosso país. Mas estas figuras e bonecos não são mudos como os nossos; são feitos para falar tal e qual os charlatães fazem nos castelos de Nápoles ou na Piazza Navona em Roma…

Os que manipulam os bonecos também os fazem falar, ou melhor, falam através deles, mantendo-se escondidos e imitando várias línguas com todo tipo de piadas. Suas apresentações nada mais são do que farsas indecentes e ocorrências obscenas entre homem e mulher com gestualidade tão grosseira ao imitar essas situações de luxúria, que não poderiam ser piores na terça-feira gorda de carnaval do que são num prostíbulo na terça-feira gorda durante o seu jejum.”

 

Apesar de suas piadas grosseiras e francas obscenidades, Karagöz ludibriava os grilhões das autoridades religiosas. Os bonecos, movidos por varas e recortados em couro ou pergaminho nos quais eram perfurados buracos aqui e ali afim de permitir que a luz passasse através deles, não poderiam ser facilmente descritos como imagens de entes humanos, e assim davam a volta na proibição do Alcorão. O uso de tipos fixos oferecia campo para a sátira e polêmica, num disfarce de aparente inocência. Não havia fraqueza humana, vaidade de classe ou abuso tópico que Karagöz não convertesse em motivo de riso.

Do Bósforo, Karagöz emigrou para o norte; estava em casa em qualquer parte do mundo islâmico. Ele sempre deu nome aos bois, e era aplaudido mesmo quando o público mal conseguia entender as suas palavras, por que o significado do humor grotesco da ação não podia lhe escapar.

Quando Karagöz certa vez aludiu de modo claro demais à corrupção da corte, em 1870, sob o sultão Abdülaziz, foi proibido de se envolver em qualquer outra sátira política, mas então os jornalistas passaram a imitar seu espírito agressivo. E mesmo hoje um semanário político popular na Turquia é chamado Karagöz.

 

Extraído do livro “História Mundial do Teatro” de Margot Berthold. Editora Perspectiva.

Para os alunos interessados, o livro está à venda nas principais livrarias virtuais.

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