Gigaku
Quando a teologia do budismo alcançou as ilhas do Japão, proveniente da China, em meados do século VI, trouxe consigo as primeiras danças e canções budistas. Sua introdução é creditada a um imigrante coreano, Mimashi de Kudara, que chegou com uma troupe ambulante à antiga capital de Nara, em 612. O príncipe regente Shotoku Taishi (572-621), um patrono das artes e zeloso pioneiro do budismo no Japão, deleitou-se com as danças e peças dos artistas estrangeiros. Ele persuadiu Mimashi a estabelecer-se em Sakurai, não longe de Nara, e ali instruir jovens alunos selecionados na arte da nova dança. Conta-se que o próprio imperador escolheu o nome da dança; chamou-a gigaku – “música arteira”. E logo o gigaku tornou-se parte do cerimonial de Estado. Era apresentado diante dos templos por todo o país, a cada ano nas duas grandes festividades religiosas, o aniversário de Buda e o dia dos mortos. Então, o palco ainda não era conhecido no Japão; os dançarinos se movimentavam ao nível do solo, acompanhados por tambores, címbalos e flautas.
Uma descrição do gigaku, que logo foi absorvido pro uma forma de dança da corte, o bugaku, pode ser colhida num tratado muito posterior, o Kyohunsho, escrito de forma retrospectiva em 1233 pelo dançarino Koma no Chikazane. À procissão inicial de bailarinos e músicos seguiam-se pantomimas, representadas com grotescas máscaras de elmo com grandes narizes de rapina, poderosas mandíbulas e globos oculares salientes.
O fato de as peças dançadas por Mimashi e seu grupo conterem originalmente cenas fálicas leva à suposição de uma conexão com o posterior mimus romano. Muito mais convincente, entretanto, é a suposição de que o ritual fálico não se originou na Grécia, mas nas terras montanhosas da Ásia Central, e que sua influência fluiu na direção contrária.
As máscaras gigaku demonstram que fortes correntes de antigos conceitos xamânicos atingiram o Japão vindas do Tibete e do norte da China, via Coréia. As máscaras gigaku remanescentes (ainda existem em torno de duzentas) estão entre os mais antigos e valiosos registros dos cultos primitivos da Ásia Oriental. Muitas dessas máscaras estão em Nara, na casa do tesouro (shoso-in) do imperador Tenji, e algumas outras em poucos templos.
Bugaku
No decorrer do século VIII, a nova dança chamada bugaku ganhou predominância. A música era a ponte entre o bugaku e o gigaku primitivo – a música instrumental da corte conhecida como gagaku, que era intimamente aparentada com a música chinesa do período Tang. O nome bugaku, “dança e música”, dá uma idéia do seu caráter. O bugaku exigia dois grupos de bailarinos: “os Dançarinos da Música à Direita” e “os Dançarinos da Música à esquerda”. Os Dançarinos da Música à Direita entravam no palco pela direita, e seus músicos ficavam postados no lado direito do palco. De forma correspondente, os Dançarinos da Música à Esquerda faziam sua entrada pela esquerda, e seus músicos ficavam postados à esquerda.
O palco bugaku era uma plataforma quadrada suspensa, rodeada de grades, com escadas de acesso ao lado direito e esquerdo. O conjunto musical à esquerda consistia predominantemente em instrumentos de sopro. No conjunto da direita, os instrumentos de percussão dominavam e marcavam o padrão rítmico para os dançarinos da direita. O espetáculo era precedido pelo embu, uma dança cerimonial de purificação de origem cultual. (A cena introdutória do drama clássico hindu, a purvaranga, começa com um rito estreitamente aparentado com o embu.) Então, os grupos da esquerda e da direita começam a dançar, parte em ritmos imponentes e parte em ritmos vivos. Os dois grupos eram tão rigorosamente distintos quanto os “Azuis” e os “Verdes” na enigmática peça de Natal dos “Bárbaros”, que era encenada na corte imperial de Bizâncio. Os dançarinos entram no palco alternadamente pela esquerda e pela direita, e sempre em pares; os que dançam a música da esquerda, inspirada por fontes chinesas e hindus, usam figurinos nos quais predomina o vermelho, enquanto o verde distingue os Dançarinos da Música à Direita. Esta, por sua vez, é de origem coreana e da Manchúria e adaptada ao gosto japonês. O bugaku termina atualmente, como sempre o fizera, com a composição chogeishi de Minamoto no Hiromasa (919-980).
Durante o período Heian (por volta de 820), o bugaku foi a dança cerimonial exclusiva da corte imperial. Até hoje, o bugaku é apresentado na corte, e o privilégio de atuar nele é passado de geração a geração nas famílias de artistas bugaku. Uma ou duas vezes ao ano, geralmente em homenagem a algum visitante importante, as danças bugaku são apresentadas na corte imperial diante de uma platéia exclusiva. O caráter tradicional do bugaku foi preservado inalterado na dança e na música, embora os figurinos e máscaras tenham mudado. Versões populares e folclóricas do bugaku, independentes do cerimonial da corte, sobrevivem em muitos pequenos templos xintoístas, juntamente com elementos da música gagaku, numa grande variedade de danças folclóricas japonesas.
No youtube:
http://www.youtube.com/watch?v=bC0YJ5M_WWE
http://www.youtube.com/watch?v=IqwoobJ2VTA